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sábado, 12 de setembro de 2009

Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda - Historiografia Brasileira - Brasil Colonial


Um Homem de sua Época: as raízes do Brasil e o tempo histórico de Sérgio Buarque de Holanda



Autores: RICOY, Diego; BLACH, Matheus.


Vida e trajetória

Sérgio Buarque de Holanda nasceu em São Paulo no ano de 1902 e faleceu em 1982. Filho de funcionário público, Sérgio provavelmente sofreu o autoritarismo paterno, contudo teve uma vida voltada aos estudos. “Escrevia prosa e verso, tocava piano, compunha valsas, gostava de dançar”. (REIS, pp. 115). É considerado por José Carlos Reis como um “intelectual feliz”. Para Reis, Holanda pôde viver uma vida intelectual intensa, sendo admirado por vários e considerado como um dos “redescobridores do Brasil”.

[...] pôde fazer tudo o que pretendeu, obteve sempre os recursos necessários, publicou obras muito importantes, que não criaram polêmicas e tensões graves, e é sempre lembrado como o modelo de historiador brasileiro. (REIS, pp. 116).

Em sua vida adulta, formou-se em Direito e morou em alguns países europeus, onde sofreu influências de autores diversos. Weber e Dilthey foram alguns deles. No Brasil, atuou como professor da Escola de Sociologia e Política de 1947 a 1955, e como professor da USP de 1958 a 1969, além de ministrar diversas palestras no exterior. Grande autor escreveu diversos livros, dentre eles “Visão do Paraíso”, “Cobra de Vidro”,Monções”,Caminhos e Fronteiras”, e ainda publicou diversos artigos em jornais e revistas. Uma de suas obras mais conhecida é “Raízes do Brasil” (1936), um ensaio que reúne diversos textos onde critica a impregnação de fatores portugueses em nossa sociedade. Sérgio, portanto, foi um profissional bastante requisitado e “gozava de enorme prestígio intelectual no Brasil” e no exterior. (REIS, pp. 116).

A seguir, faremos uma análise de uma de suas principais obras, escrita em 1936: Raízes do Brasil. Apontaremos quais são as relações que o autor estabelece entre o passado e o futuro, ou seja, usando as categorias campo de experiências e horizonte de expectativas – propostas por Reinhart Kosseleck – procuraremos entender qual a concepção de tempo histórico presente na obra e comparar as idéias do autor com as de Gilberto Freyre.

Contexto Histórico de 1930

Durante os anos 1930, o Brasil passava por uma revolução, onde a sociedade brasileira deixava de ser uma sociedade baseada na economia agropecuária e passava então a ser dominada pelo capitalismo industrial. Com isso, houve grandes transformações nas estruturas sociais, onde novas classes emergiram: proletariado, burguesia e classes médias.

Conseqüentemente, tal fato acabou gerando uma mudança substancial das mentalidades dos intelectuais brasileiros em relação ao futuro do país, onde estes começam a discutir as questões referentes à identidade do Brasil e ao progresso da nação.

Todos os intelectuais querem decifrar o enigma do Brasil e interferir na produção do seu futuro. Discute-se, então, a identidade nacional brasileira, os obstáculos ao seu desenvolvimento e progresso, as formas de vencer o atraso horroroso. (REIS, pp. 117)

Um fator importante que caracterizou as “disputas” ideológicas entre os intelectuais da época – como os contrastes entre as idéias de Sérgio Buarque de Holanda e deu contemporâneo Gilberto Freyre – foi a crise da oligarquia brasileira e a transferência do poder do nordeste agropecuário para o sudeste urbano. Gilberto Freyre como integrante dessa oligarquia decadente enxergou o “progresso” e a industrialização do Brasil com desconfiança e em sua obra faz um grande elogio ao passado e defende uma retomada daqueles valores que estavam sendo superados. Já Sérgio Buarque busca uma ruptura com o passado, pois projeta no futuro o progresso, a mudança, o avanço da sociedade. Essa questão fica explicita no seguinte trecho:

A falta de coesão em nossa vida social não representa, assim, um fenômeno moderno. E é por isso que erram profundamente aqueles que imaginam na volta à tradição, a certa tradição, a única defesa possível contra nossa desordem. [...] As épocas realmente vivas nunca foram tradicionalistas por deliberação (HOLANDA, pp. 33).

Assim, o Estado começa a investir na educação laica, desvinculada da Igreja que antes dominava o ensino secundário e superior. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) cedeu então seu lugar no ensino e pesquisa em história às universidades.

Com essa influência da universidade no conhecimento histórico, tivemos o surgimento da “escola dos Annales” na França. Desta forma, a História aproximava das ciências sociais, e as questões a serem discutidas deixam de ser somente no campo político, mas volta-se também para o cenário econômico, social e cultural. Portanto, houve uma quebra com o paradigma do “Brasil Positivista”, sendo que os intelectuais buscavam neste momento pesquisar a “realidade brasileira”. Para José Carlos Reis, “essas mudanças no conhecimento histórico e social refletem as mudanças significativas que ocorreram na sociedade, que é mais complexa e possui novos e atuantes sujeitos sociais.” (REIS, pp. 117).

Diversos autores, entre eles Sérgio Buarque de Holanda, escreveram durante este período usando teorias de escritores que reforçavam essa quebra com o conservadorismo político. Karl Marx, Max Weber, Franz Boas e Georg Simmel são exemplos de teóricos “importados”. Intelectuais brasileiros buscavam então uma forma de perceberem a sociedade brasileira em sua totalidade, incluindo negros, índios, mulheres e outros sujeitos históricos na História do Brasil. 

O Brasil precisava ser conhecido em suas peculiaridades: desigualdades regionais, heterogeneidade étnica, heranças do escravismo, imigração, peso das oligarquias, predomínio do privatismo sobre a vida pública, personalismo nos partidos políticos, conquista da cidadania. [...] não teria futuro excluindo sua própria população do gozo dos direitos da cidadania. (REIS, 1999).

Principais idéias e influências do autor

Em “Raízes do Brasil”, ficam claras as influências que Sérgio Buarque de Holanda recebera do historicismo alemão e das obras de Weber e de Ranke. O seu pensamento se aproxima ao de Ranke em um sentido muito claro: o da busca pela essência da nação, do espírito do brasileiro e da identidade nacional. Ele quer identificar a cultura nacional, traçar o seu perfil, sua origem, desenvolver a sua história, encontrar as raízes culturais e, uma vez que devidamente analisadas, estar apto a romper com essa história, arrancar essas raízes e seguir rumo ao “progresso”.  

O autor defende que para se pensar o Brasil não basta apenas teorias importadas baseadas em leis históricas. Para ele, os intelectuais devem buscar a singularidade do caráter brasileiro para entender seus fenômenos sociais. É neste sentido que percebemos o seu historicismo: na procura pela singularidade. Porém é importante sempre lembrar que Sérgio Buarque de Holanda busca essa singularidade, peculiaridade, para conhecê-las a fundo e poder depois esquecê-las, pois segundo ele o nosso passado colonial deveria ser superado para que pudéssemos ter uma eficaz organização política.

O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação, ou antes, uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer, exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente. (HOLANDA, pp. 61).

Esse passado a ser superado do qual o autor fala e que repetimos e ainda repetiremos diversas vezes no decorrer de nossa análise é sempre associado às origens coloniais, as ações dos portugueses no Brasil.

Ainda sobre esse assunto, o autor explica que os valores tradicionais e familiares predominam sobre o âmbito da política. O privado invade o público e esse tipo de relação se caracterizaria até diante da religião. Sergio Buarque de Holanda considera isso como o que há de pior na formação da sociedade brasileira, pois torna-se impossível qualquer tipo de organização racional política do Estado. Visão contrária tem Gilberto Freyre, que defende que tal aspecto é o que há de mais belo na sociedade brasileira, as relações íntimas, passionais, afetivas. Essa seria então a herança cultural deixada pelos portugueses e que Sérgio Buarque de Holanda quer esquecer enquanto Gilberto Freyre quer retomar e manter.

Todo o seu trabalho é fundamentado na teoria social weberiana. Dando continuidade ao raciocínio acima, podemos até estabelecer um paralelo entre “Raízes do Brasil” e “A Ética Protestante e Espírito do Capitalismo” de Max Weber. Enquanto Weber pensa na ética do trabalho presente nas religiões protestantes como algo determinante para a constituição dos EUA e seu sucesso diante do sistema capitalista, do progresso e da industrialização, Sergio Buarque de Holanda fala da ética do ócio, na influência da Antiguidade Clássica na vida do povo ibérico. Ele crítica o desleixo do português, sua preguiça, aponta a tradição da nobreza e da religião católica, fala da visão do trabalho de forma pejorativa, como determinantes da falta de coesão social e de organização política do Brasil.

Um fato que não se pode deixar de tomar em consideração no exame da psicologia desses povos é a invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda moral fundada no trabalho. [...] É compreensível assim, que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e o apreço a atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram com o ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. E assim, enquanto povos protestantes preconizam e exaltam largamente o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se ainda largamente no ponto de vista da Antiguidade Clássica. (HOLANDA, pg38).

Outro traço weberiano visível está na discussão sobre o Estado brasileiro: segundo o autor, deveria haver uma separação radical, total entre as esferas do público e do privado que se confundiam no país, além de uma modernização, racionalização e burocratização eficaz do sistema público. Para S. B. de Holanda:

Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes. As iniciativas, mesmo quando se quiseram construtivas foram continuamente no sentido de separar os homens, não de os unir. (HOLANDA, pp. 33).

A ausência de um projeto colonizador, de um empreendimento metódico, racional dos portugueses ao vir pra o Brasil seria não a principal, mas a única razão de todas as mazelas que a sociedade brasileira sofria, falta de coesão social total deficiência na organização política. O autor ainda aponta que apesar de seu desleixo ou do péssimo trabalho que fez, o português se esforçou ao máximo para conseguir este resultado.

Essa exploração dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores. E o reconhecimento desse fato não constitui menoscabo à grandeza do esforço português. (HOLANDA, pp. 43).

Ainda sobre o desleixo do português o autor dedica algumas páginas para exemplificá-lo, falando sobre como se deu a agricultura aqui no Brasil. A natureza aqui era muito difícil para o português, ele não conseguia impor sua vontade e usá-la a seu favor. O português se adaptou as condições locais e “plantou o que deu” ao invés de usar das técnicas de exploração do solo para plantar aqui o que desejasse. Essa capacidade de adaptação ou plasticidade do português não era uma virtude de sua perspicácia e sim fruto de sua preguiça e falta de capacidade de impor, através do trabalho, a natureza sob sua vontade. Gilberto Freyre, ao contrario, defende que essa adaptabilidade era a melhor característica do português que soube aproveitar o que tinha aqui. Para Holanda o português era um preguiçoso que ao invés de fabricar suas camas aprenderam a dormir em redes como vemos no seguinte trecho:

Onde lhes faltasse o pão de trigo, aprendiam a comer o da terra, e com tal requinte, que [...] a gente de tratamento só comia farinha de mandioca fresca, feita no dia. Habituaram-se também a dormir em redes, à maneira dos índios.(HOLANDA, pg47).

Percebe-se então em “Raízes do Brasil” que Holanda propunha uma mudança radical na visão de mundo da sociedade brasileira, aceitando seu passado de “raízes portuguesas”, mas rompendo com elas para criar um futuro legitimamente brasileiro.

O Brasil precisava mudar e não poderia continuar mais na mão dos seus conquistadores. [...] precisava ser ‘redescoberto’ e reconstruído pela sua própria população. O futuro deverá ser radicalmente diferente do passado. (REIS, pp. 118-19).

A obra: Raízes do Brasil

A obra de Sérgio Buarque de Holanda tratará de questões centrais do ponto de vista do autor sobre as problemáticas da sociedade brasileira em relação à colonização portuguesa. Os capítulos são divididos em assuntos fundamentais onde o autor irá “destrinchar” vários aspectos que fará com que o leitor compreenda sua proposta de um processo revolucionário que quebra com o conservadorismo patriarcal português.

O autor começa seu ensaio discutindo sobre o caráter peculiar da colonização ibérica na América. Ele critica a implantação de uma cultura européia no Brasil, pois uma região tropical deveria ter suas particularidades em evidências, e não importar uma cultura que não iria se adaptar fora de seus padrões regionais. “Pensamos com idéias inadequadas à nossa realidade social, idéias que, ao invés de facilitarem nossa relação com a realidade, a impedem.” (REIS, pp.123). Para ele, faz-se necessário que os brasileiros então reconheçam seu passado desastroso e se ajustem ao presente, começando a agir em prol de seu futuro, de uma construção de uma identidade propriamente brasileira e não neoportuguesa.

Explorando o termo – neoportuguês – o autor faz uma breve contextualização sobre o processo de formação do Estado português, que segundo ele se deu de forma talvez precoce. A nação portuguesa desenvolveu-se à margem da Europa, e por isso têm um caráter original, específico. (REIS, 1999). Os ibéricos negam o trabalho manual e zelam pela ociosidade, recusando também a hierarquia e tendem ao individualismo anárquico, sentindo-se nobres por isso. (REIS, 1999). Holanda argumenta ainda que mesmo com a ascensão da burguesia em Portugal, esta não representou uma nova mentalidade nem tampouco impôs novos valores modernos, mas acabou por assimilar o modo de vida da nobreza. (REIS, 1999).

Cada burguês se sente nobre e exibe a sua fidalguia em seu vestuário, em sua recusa ao trabalho manual, em seu ócio, em seus títulos comprados ao Estado. A hierarquia feudal, rígida na França, em Portugal não existiu. As classes sociais não eram bem fixadas: todos eram fidalgos. (REIS, pp. 124)

Este, portanto, é o tipo de neoportuguês a que se refere e que se quer negligenciar para a construção de uma identidade brasileira: rural, familiar, desinteressado pela vida pública. Até mesmo o dito “jeitinho brasileiro” em que prevalece o afetivo e o irracional, tão presente em nossa sociedade atual – por exemplo, quando uma pessoa é escolhida para um cargo político por ser amigo ou parente de alguém “importante” em detrimento de outra pessoa que tinha as melhores qualidades profissionais para tal trabalho – seria uma tradição portuguesa baseada na ética dos nobres fidalgos.

"Trabalho e Aventura"

Já no segundo capítulo de sua obra, Sérgio se mostra verdadeiramente um pensador weberiano, pois cria seu próprio modelo de análise, seus próprios conceitos: trabalhador e aventureiro. Denominado “Trabalho e Aventura”, esta parte do ensaio visa diferenciar as características dos povos que focavam no trabalho dotados de uma “ética protestante” e de certo “espírito do capitalismo”, dos povos católicos aventureiros, que prezavam pela ociosidade e pela recusa ao trabalho – atitude tão cara e preciosa para cidadãos da Antiguidade Clássica. Os aventureiros – povos colonizadores da península ibérica – são povos que querem obter o lucro imediato, sem muito esforço e trabalho.

Ele ignora fronteiras, é espaçoso, invasor, ladrão, aceita riscos, ignora obstáculos e, quando os encontra, transforma-os em trampolim. É audaz, imprevidente, criativo, ocioso e vê longe. Quer a recompensa sem esforço. Não visa a estabilidade, à paz, à segurança pessoal. (REIS, pp. 125).

"O Semeador e o Ladrilhador"

Em se tratando da diferença da colonização portuguesa na América da espanhola, Sérgio escreve o capítulo “O Semeador e o Ladrilhador”. Nesta parte do ensaio, o autor critica o desleixo dos portugueses para com a colônia, pois, tal como um semeador, realizava suas tarefas sem uma organização necessária.

O Estado português não teve um controle efetivo das colônias antes de encontrarem pedras preciosas em territórios brasileiros. Durante cerca de trinta anos após a conquista, foram os franceses que se instalaram em terras nacionais, juntamente com particulares portugueses e de diversas áreas da Europa. Apoiavam-se nas vilas como meio de administrar um local temporariamente para obter lucros imediatos e depois abandonar a área e procurar outros locais para exploração. Repetiam os mesmos exemplos da colonização na Antiguidade Clássica.

A colonização portuguesa não foi urbana porque edificar cidades é uma manifestação do espírito e da vontade, coisa que os portugueses não conheciam. (REIS, pp. 129).


Somente após encontrarem o ouro no Brasil é que decidiram efetivar a colonização e explorar ao máximo as matérias-primas e mão-de-obra daqui, o que acabou gerando diversas revoltas por exploração, por poder e por reconhecimento social. Ainda assim a construção das vilas e cidades não segue um projeto colonizador, segundo Holanda, são formadas de acordo com a conveniência, não são planejadas, seguem o curso dos rios e das minas. Mesmo com essa maior presença do Estado, buscavam lucros imediatos e sem uma maior organização.

A circunstância do descobrimento das minas, sobretudo das minas de diamantes, foi, pois, o que determinou finalmente Portugal a pôr um pouco mais de ordem em sua colônia, ordem mantida com artifício pela tirania dos que se interessavam em ter mobilizadas todas as forças econômicas do país para lhe desfrutarem, sem maior trabalho, os benefícios. (HOLANDA, pp. 103).

Segundo José Carlos Reis, nas vilas tudo era irregular, ou seja, não havia uma organização sistemática, uma vontade criadora, construtora, sendo que a colonização fora orientada pelo desleixo e pelo abandono. (REIS, 1999).

Diferentemente de Portugal, a Espanha foi mais organizada no processo de colonização na América, tal como um “ladrilhador”, apoiando-se nas cidades como centro administrativo sistemático.

Na América, os espanhóis tiveram como meta transplantar e consolidar as estruturas que compunham a organização social na Espanha para a América, desenvolvendo uma espécie de “nova Espanha”. Organizaram-se em cidades, construíram universidades e o ensino era basicamente cristão.

[...] a colonização espanhola caracterizou-se largamente pelo que faltou à portuguesa: por uma aplicação insistente em assegurar o predomínio militar, econômico e político da metrópole sobre as terras conquistadas, mediante a criação de grandes núcleos de povoação estáveis e bem ordenados. (HOLANDA, pp. 95).

"Colonização lusitana x colonização espanhola"

Sérgio Buarque argumenta ainda sobre a diferença da postura colonizadora dos países ibéricos na América. Ele cita que os espanhóis adotaram um método mais rigoroso possivelmente pelo fato de encontrarem rapidamente muita prata e terem que organizar um sistema de controle mais rigoroso na extração. (REIS, 1999). Encontraram também sociedades com estruturas mais complexas, que exigiu um maior controle e “mão forte” da Igreja com a Inquisição. (REIS, 1999). Já os portugueses eram conservadores e prezavam pelo desleixo, pelo ócio, não pelo trabalho. Não tinham planejamento e não arquitetavam o futuro. “Até parece que não vivem aqui, que estão de passagem, que querem ir para outro lugar e que acreditam que irão, depois de ficarem ricas aqui.” (REIS, pp. 132).

Holanda faz tal distinção tratando com certo desprezo a colonização lusitana, pois, segundo ele, o que a sociedade brasileira tem de pior é devido às raízes portuguesas impregnadas no país.

Os brasileiros precisam esquecer as suas raízes ibéricas e o melhor modo de esquecê-las é conhecê-las em toda a sua precariedade como projeto social. (REIS, pp. 132).

"O Homem cordial"

Sérgio faz uma crítica ao Estado brasileiro, onde ainda predomina o modelo da família patriarcal, sem uma organização burocrática, dotado de um despreparo técnico, e que impede a constituição de um Estado moderno. Até mesmo a escolha do corpo técnico do Estado era feita informalmente, ou seja, “de acordo com a confiança pessoal que mereçam os candidatos, e muito menos de acordo com as suas capacidades próprias.” (HOLANDA, pp. 146).

O caráter de “homem cordial” na sociedade provém de Portugal e já representa um traço definido do caráter brasileiro. (HOLANDA, 1995). A cordialidade, a generosidade e a hospitalidade do indivíduo brasileiro têm também raízes lusitanas e ao contrário do que parece, Sérgio Buarque crê que tais características nada têm de civilidade. Para que haja civilidade, tem de haver algo coercitivo!

Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência – e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no “homem cordial”: é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. (HOLANDA, pp. 147).

Esse “espírito amigável” do homem cordial faz com que ele trate até mesmo desconhecidos como se fossem irmãos. (REIS, 1999). Quer reconhecer as pessoas como próximas ao seu convívio, amigáveis, íntimas. Holanda cita que o sufixo “inho” implantado pelo indivíduo português “serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo”. (HOLANDA, pp. 148). Sérgio cita o exemplo de uma santidade: “Santa Teresa de Lisieux” vira “Santa Teresinha” em territórios brasileiros, tratando esta com uma intimidade quase desrespeitosa, mas querendo familiarizar-se com as figuras divinas. (HOLANDA, 1995). Para ele, a falta de um Estado aliado a Igreja no Brasil fez com que não se desenvolvesse um método coercitivo mais eficaz na elaboração política das estruturas eclesiásticas. Holanda cita Saint Hilare, que faz uma crítica ao valor dado pelos fiéis brasileiros à Igreja Católica: aqui não havia um interesse por parte dos indivíduos nas pregações religiosas. Eles rezavam e prestavam serviços religiosos sem muita atenção e apreço.

Os homens mais distintos delas participam apenas por hábito, e o povo comparece como se fosse a um folguedo. No ofício de Endoenças, a maioria dos presentes recebeu a comunhão da mão do bispo. Olhavam à direita e à esquerda, conversavam antes desse momento solene e recomeçavam a conversar logo depois. (HOLANDA, pp. 151).

Portanto concluímos que a proposta de Holanda de romper com as influências do passado colonial português – ou seja, seu tempo histórico - não implica de fato em uma revolução a ser feita no futuro. Para ele o Brasil já vive o tempo revolucionário e não se trata do contexto de 1930 unicamente. ”Segundo ele, o Brasil vive uma lenta revolução: transita de uma sociedade rural, regida por privilégios, familiar, natural para uma sociedade urbana, mais abstrata e regrada, artificial.” (REIS p.135). Esse processo se consolidará também ao longo do tempo, e a proposta do autor é que no contexto de 1930 tal processo revolucionário se fortaleça. Quando o mundo rural começou a se desmantelar, as oligarquias rurais perderam sua centralidade política, decaiu a influência portuguesa e o mundo das cidades começou a ascender, com personagens racionais, modernos, produtivos, extra-familiares.


Referências Bibliográficas

HOLANDA, Sérgio Buarque. “Raízes do Brasil”. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: uma contribuição à semântica dos tempos históricos”. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006.

REIS, José Carlos. “As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC”. 3. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas Editora, 2000.

WEBER, M. “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. 2a. edição. Tradução de M. Irene de Q. F. Szmercsányi. São Paulo: Pioneira, 2001. 

10 comentários:

Marcela disse...

PARABENS, li e gostei bastante!!

Anônimo disse...

Pensamento ultrapassado! O Português sempre foi trabalhador! Não se importava com o Brasil? E o brasileiros? Nem eles se importam com o Brasil! Faça-me o favor: será que este país nunca será livre?
P.S.: sou brasileiro.

Nelson Christovão disse...

Caro anônimo, ignorante, que não quis ao menos dizer seu nome. O seu comentário infeliz e pobre me deixou bastante chateado e confirmar a certeza de que vc. também faz parte desse mar de ignorância que faz parte todo o brasileiro. Lei mais a história do Brasil, e descubra que o propósito do Português e do Espanhol era único: Tirar o máximo de proveito do país colonizador, não investir nada, escravizar os cidadãos locais, que no caso eram os índios. Durante na chegada de Dom João VI, ficaram parte na Bahia e parte no Rio de Janeiro, e durante aquela chegada a princípio foram invadidos casas , botaram gente na rua em nome da nobreza , transaram com as negras a torto e a direito onde a taxa de natalidade com crianças sem pai cresceu assustadoramente, ou seja: o Brasil depois da chegada do nobreza portuguesa tornou quase um país de cidadãos bastardos. Aqui , sempre fora um país coletivo pelo individual. Portanto, meu caro, o português trabalhou sim, mas para a exploração e não investimento em massa, eles e os espanhóis sempre foram vagabundos e roubadores, sempre gostaram de vida fácil e que se se alienaram a igreja católica e manipularam uma massa burro como sempre foi a América Latina. Me dê exemplo de algum país de origem latina , abaixo da linha do equador que seja desenvolvido e exemplar em postura política, cível , educacional, honesta ? Você já esteve em país colonizado por outras raças? Como a raça anglo-saxasão, nórdica, germânica etc? Um país como o nosso que preserva a preguiça como qualidade de vida, o pézinho esticado na mesa de centro da sala assistindo novela, gugu, faustão e o cacilda à quatro. Que preserva a vagabunda ou a bicha como chefes de setor, deixando pais de família desempregado, que até a década de 50 não havia definido escolas de 2o grau no país nem ao menos sistemas de ensino, e que até hoje esta bosta chamada Brasil não possui industria própria de veículos , onde as montadoras são todas de fora. E você , ANÔNIMO de merda e o resto o país, que têm um problema irreversível de DEMÊNCIA, acha que esta tudo bem e dá ouvidos para esse monte de asneiras que os jornais se vendem para publicar, incluindo os jornais nacionais que manipulam todas as notícias para conduzir com tranquilidade, esse monte de quadrupedes que se assentam diante da TV de Plasma, comprada nas Casas Bahia, mas que esta com POBREMA de saúde. Não tem ao menos interesse em ler uma linha , se quer, de um bom livro e estudar algo por conta, se esforçar ao máximo para que, pelo menos a sua vida de merda saia do mar de ignorância que esta nação sempre esteve mergulhada num mar de anti-desenvolvimento. Se quiser falar de história de verdade, fale comigo, ao invés de ficar sentado com essa bunda gorda em mesinha de buteco, tomando cerveja barata, falando de futebol barato, e de mulheres burras que não se dão respeito, ao invés de fazer a diferença de postura de mulher culta, digna na vestimenta e palavras e fato, e que copiam os feitos da mulheres escravas do passado que eram conduzidas pela igreja católica a se prostituirem em favor dos portugueses, chefes de família, recém-chegados a Bahia e polpar suas esposas que ficavam trancafiadas com os filhos. País que até década de 50 tinha apenas 800 km de estradas federais asfaltadas, nunca teve infra-estrutura dentro e fora das cidades, onde se expandiu sem controle, esgoto, água encanada, escola, saúde, trabalho de fato. Sugiro voltar para o ventre de sua mãe e recomeçar a sua estória. NELSON CHRISTOVÃO - BRASILEIRO, PAÍS DE FAMÍLIA, 47 ANOS, DESEMPREGADO A MUITO TEMPO, PROFESSOR DE PORTUGUÊS E INGLÊS E SEMPRE DESCRENTE POR QUALQUER TIPO DE CRESCIMENTO NESTE PAÍS.







ione disse...

esse texto sobre Sergio Buarque de holanda é muito enriquecedor para mim pois gosto muito de historia e esses textos não costa em livros de historia do brasil

Edna Medeiros Sampaio disse...

Raízes do Brasil é uma leitura rica tanto em história como em sinceridade, os portugueses só vieram roubar os metais não só do Brasil mas também de todo e qualquer nação em que eles colonizarão e só ficaram aqui no Brasil porque retornar para Portugal naquele periodo significava a morte para a nobreza. Já os espanhois sonhavam com uma grande nação mesmo que vosse um pedaço aqui outro acolá. Edna Medeiros Sampaio estudante e servidora pública descendente também de portugueses.

Touglas topini disse...

Douglas Do Nascimento Topini disse
parabéns por esse lindo trabalho,este trabalho contribuirá com o meu capital cultural.
Os portugueses levaram muita coisa nossa, D.João VI quando voltou para Portugal para não perder o trono para Inglaterra, limpou todo o dinheiro do Banco do Brasil, deixando falido, arruinou a economia na época.

Anônimo disse...

òtimo trabalho! gostei muito
parabéns

Jorge Ramiro disse...

Eu também acho que é um excelente trabalho e quero felicitá-lo. Eu encontrei por acaso, eu estava navegando na internet, eu estava procurando um aluguel temporada buenos aires e cheguei aqui.

Rosa Damasceno Paranhos disse...

Excelente texto, muito interessante e enriquecedor saber que a origem preguiçosa vem do Português e não do
Índio, como até então queriam nós fazer acreditar.
Amo história e descobrir a nossa verdadeira é muito gratificante.
Obrigada

Ricardo Jorge disse...

Boa noite Diego Ricoy, sou graduando do 4º período de História, e acabei de ler a respectiva obra, a qual achei um tanto depreciativo a síntese do autor quanto ao povo ibérico e mais notadamente ao português. Estou para perguntar a meus professores sobre como os portugueses encaram essa obra. Ao repetir de forma mais minuciosa uma busca pela Internet, encontrei seu texto. Por acaso você tem algum conhecimento a respeito dessa minha dúvida. Desde já meu muito obrigado. Ricardo Jorge