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sábado, 6 de março de 2010

Função do Historiador - Papel do Historiador - Historiografia Contemporânea - Teoria da História - Edward Hallet Carr - Georges Duby


O Historiador e seu papel na contemporaneidade: seus fatos, sua metodologia e suas análises

No século XIX, Leopold Von Ranke acreditava que se poderia fazer uma história do passado pelo passado, a partir de sua metodologia de análise do documento. Para ele, ao adotar a imparcialidade, o historiador poderia chegar a uma verdade histórica objetiva. Hoje, muito se tem discutido quanto a objetividade do conhecimento histórico. Muitos historiadores, assim como Georges Duby, acreditam que a História seja uma ciência particular, uma ciência diferente da tradicional forma científica galileana baseada em fatos comprováveis. Para ele, contrapondo-se com os ideais positivistas, a objetividade na História é um mito já que em qualquer narrativa histórica há uma subjetividade de quem a escreve, sendo qualquer tipo de documento “contaminado” de juízo de valores e influências de seu tempo. Já na escolha de certo objeto de estudo, o historiador emite juízo de valor, não ficando imparcial diante a seleção de seu tema de pesquisa.

Diante dessas comprovações, podemos notar que o conhecimento histórico é um conhecimento “volátil”, quase que historicista, já que perpassa por uma tese inicial em cima de um fato, uma antítese que é a contestação da tese, e a síntese que seria uma nova abordagem de um mesmo fato. Sendo assim, a História torna-se um ciclo de análises intermináveis, sendo sempre construída, descontruída e reconstruída por gerações posteriores, como diz o próprio Georges Duby.

Ao contestar a objetividade da História metódica do século XIX, Edward Hallet Carr critica a metodologia de análise positivista:

A história consiste num corpo de fatos verificados. Os fatos estão disponíveis para os historiadores nos documentos, nas inscrições, e assim por diante, como os peixes na tábua do peixeiro. O historiador deve reuni-los, depois levá-los para casa, cozinhá-los, e então servi-los da maneira que o atrai mais. (Carr, p. 45).

Para ele, portanto, quanto maior for a proximidade do historiador de seus fatos melhor e mais “completa” será a análise do objeto. Segundo o autor, os fatos não falam por si só: apenas quando o historiador os interroga é que eles ganham legitimidade diante à História. “É o historiador quem decide por suas próprias razões que o fato de César atravessar aquele pequeno riacho, o Rubicão, é um fato da história [...]” (Carr, p. 47). Dessa forma, é o historiador quem seleciona os fatos da História, os fatos que realmente devem ser dignos de análises e compreendidos num contexto mais amplo – o da “macro-história”.

A partir disso, percebemos que os positivistas tentaram fazer uma História conservadora a partir de seu campo de experiências, ou seja, dos grandes eventos políticos legitimados pelo Estado, visando com isto obter um horizonte de expectativas em que, com as constatações do passado, construiriam um futuro glorioso, próspero e evolutivo. Queriam, então, resgatar o evento passado glorioso para que este pudesse influenciar o presente e projetar no futuro grandes expectativas de um amanhã também de glória e prosperidade. Os sujeitos da História eram os “grandes homens” – como Alexandre, o Grande, Carlos Magno, dentre outros –, pois estes eram vangloriados pelo Estado por seus feitos, tendo sido suas memórias perpetuadas durante séculos. Ranke era um funcionário do Estado alemão e tinha por objetivo fundar a nação alemã a partir de uma história nacional. Para isso, precisaria de um elemento aglutinador: a saída encontrada fora a História! Nela, poder-se-ia manipular o presente, fazendo com que os “mortos controlassem os vivos”, ou seja, os grandes homens fossem vistos como um modelo a se seguir, sendo então um elemento aglutinador.

Para Duby, o trabalho feito pelos positivistas não pode ser desmerecido. São as palavras do próprio autor: “Esse material constitui, hoje, o meu principal alimento e eu tento reler, com outro espírito, os textos que a história positiva do século XIX utilizou para construir uma história dos acontecimentos.” (Duby, p. 12). Já Hallet Carr acredita que, por maior esforço que tenha havido por parte dos positivistas novecentistas em juntar o maior número de documentos da História, “a história tem sido vista como um enorme quebra-cabeças com muitas partes faltando.” (Carr, p. 49). Por maior que seja o número de fontes que tenhamos sobre a Mesopotâmia, por exemplo, nosso conhecimento é, ainda assim, limitado sobre esta sociedade. Baseamos muito em resquícios arqueológicos e em fontes iconográficas rupestres, o que não nos permite analisar de uma forma mais ampla a região. Não é pelo fato de termos poucos escritos do período que dificulta o processo. Podemos nos remeter a tempos mais próximos ao nosso, onde já há uma vasta historiografia sobre a Inconfidência Mineira ou a Ditadura Militar, mas, mesmo com tantos registros, nunca saberemos qual a “real” história do período, a história objetiva e verdadeira, por serem subjetivas as pesquisas realizadas sobre tais eventos.

Segundo Duby, os historiadores devem utilizar todas as fontes que se julgarem necessárias, mas devem ter sempre em sua consciência que “jamais chegaremos a uma verdade objetiva.” (Duby, p. 13).

Nós bem sabemos como a Grécia do século V era vista por um cidadão ateniense; mas não sabemos praticamente nada de como era vista por um espartano, um corintiano, ou um tebano – para não mencionar um persa, ou um escravo ou outro não-cidadão residente em Atenas. Nossa imagem foi pré-selecionada e predeterminada para nós, não tanto por acaso mas por pessoas que estavam consciente ou inconscientemente imbuídas de uma visão particular e que consideravam os fatos que sustentavam esta visão dignos de serem preservados. (Carr, p. 49).

Os documentos, portanto, dizem apenas o que certo autor/escritor pensa sobre certo acontecimento. É uma “verdade” apenas para ele e para os que concordam com seu ponto de vista. Duby chega a declarar, a partir dessa visão, que a história é uma ficção: “o historiador conta uma história, uma história que ele forja recorrendo a um certo número de informações concretas.” (Duby, p. 13). Segundo ele, há ainda muitos acontecimentos históricos que são utilizados e manipulados por diversos meios a serviço de certa ideologia¹. Por isso há uma importância também em saber quem escreveu o documento e, essencialmente indagar sobre o seguinte aspecto: qual o tempo histórico do autor? Para isso, devemos nos recorrer a metodologia do “campo de experiência e horizonte de expectativas” proposta por Reinhart Koselleck.

Em primeiro lugar, os fatos da história nunca chegam a nós “puros”, desde que eles não existem nem podem existir numa forma pura: eles são sempre refratados através da mente do registrador. Como conseqüência, quando pegamos um trabalho de história, nossa primeira preocupação não deveria ser com os fatos que ele contém, mas com o historiador que o escreveu. (Carr, p. 58).

Por conseguinte, Hallet Carr ressalta que os fatos históricos e os documentos são elementos de suma importância para o historiador. Mas eles somente não constituem a História: é necessário que o historiador atue sobre seu objeto, elabore questões sobre ele, o interprete, desenvolva pesquisas a partir das ciências auxiliares e, acima de tudo, “mergulhe” em seu tema e esteja cada vez mais próximo de sua pesquisa. “A função do historiador não é amar o passado ou emancipar-se do passado, mas dominá-lo e entendê-lo como a chave para a compreensão do presente.” (Carr, p. 61).


¹ Como é o caso da figura de Tiradentes, tratado por José Murilo de Carvalho em sua obra “A formação das Almas”. Tiradentes é utilizado como ideologia em diversos períodos do Brasil desde sua morte à sua “martirização”.

Referências Bibliográficas:


CARVALHO, José Murilo de. “Os mortos, os vivos e a Inconfidência Mineira”. Nossa História, São Paulo, p. 98 - 98, 01 abr. 2005.

CARVALHO, José Murilo de. “A formação das almas: o imaginário da República no Brasil”. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

CARR, Edward Hallet. “O Historiador e seus fatos”, in “Que é História?”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 3.ed., 1982.

DUBY, Georges. “O historiador, hoje”, in “História e Nova História”. 3 ed. pp. 7-21.

HOBSBAWM, Eric J. “Sobre História”. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

KOSELLECK, Reinhart. “Futuro Passado: uma contribuição à semântica dos tempos históricos”. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006.

REIS, José Carlos. “A História entre a Filosofia e a Ciência”. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

3 comentários:

luciana disse...

EU QUERO SABER BEM MAIS CLARO QUAL E A FUÇÃO DE UM HISTORIADOR

Diego Ricoy disse...

Prezada Luciana,
Creio que a última frase do texto sintetiza meu pensamento sobre o papel do historiador na contemporaneidade: “A função do historiador não é amar o passado ou emancipar-se do passado, mas dominá-lo e entendê-lo como a chave para a compreensão do presente.” (Carr, p. 61).

Abraços!

JaqueMafra disse...

Olá Diego!
Estudo jornalismo na USP e gostaria de agradecer imensamente por esse artigo, uma vez que me ajudou com meu trabalho sobre o papel do historiador. Acredito q tanto na minha profissão quanto na sua, a objetividade é algo que não existe, e poder confirmar isso por parte de um historiador me ajudou a compreender melhor o trabalho de pesquisa que deve ser feito em ambas as profissões.
Muito obrigada novamente!
Abraços