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terça-feira, 23 de março de 2010

Historiografia Latino-americana - América Latina - História da América - Latinidade


Historiografia Latino-Americana

Atualmente, podemos destacar que o termo “América Latina” produziu grande impacto no cenário historiográfico. Isso porque esse termo, em períodos distintos, produziu significados diversos, desde a exaltação da latinidade à discriminação pelo subdesenvolvimento. Para o autor Hector Bruit, tal denominação teve maior destaque após a Segunda Guerra Mundial:
a latinidade e a idéia de América Latina têm a ver com a consciência cultural do continente. O nome e a idéia não existiram na consciência dos intelectuais americanos do século XIX. O nome se popularizou após a Segunda Guerra mundial. (BRUIT, p. 1).
Bruit destaca em seu texto vários momentos em que foi usado esse termo em obras de pensadores que estudaram a América durante o período dos séculos XIX e XX. Dentre eles, dois autores sul-americanos merecem destaque em sua análise: Carlos Calvo e José Maria Torres Caicedo. Segundo ele, foram estes autores, argentino e colombiano respectivamente, os precursores do termo “América Latina” que, tinha como objetivo, dar nome ao continente que perdera o seu original para o único país que ainda não tinha nome: os Estados Unidos. (BRUIT, 2000). Para Bruit, Calvo queria fazer com que a América fosse conhecida na França e na Europa em geral, enquanto Caicedo queria organizar um movimento contrário à política pan-americana dos Estados Unidos. (BRUIT, 2000).
Para uma melhor compreensão no decorrer de nosso estudo, é de suma importância destacar as análises historiográficas do historiador Jurandir Malerba em seu livro A História na América Latina: ensaio de crítica historiográfica. Segundo o autor, na sociedade contemporânea pós-moderna – pautada na fragmentação identitária, na análise do micro e do surgimento de novos sujeitos históricos – não é tão relevante elaborar uma análise histórica da América Latina pautada em teorias totalizantes, que tratam o continente como sendo homogêneo, e em metanarrativas, elaborando projeções para o futuro.
Malerba nos coloca sobre o quadro historiográfico do período anterior aos anos 1960. Segundo ele neste período “prevalecia em termos quantitativos um tipo de história que se poderia chamar de ‘tradicional’, ou seja, não profissional, produzida por intelectuais autodidatas com as mais diversas formações [...]” (MALERBA, p. 17). A história dita positivista era uma tendência e os fatos políticos dominavam as análises históricas, que por sua vez tratavam apenas dos grandes homens e suas conquistas, méritos e feitos em geral. Buscava-se na História um elemento aglutinador que proporcionasse aos indivíduos uma identidade comum, ou seja, um sentimento identitário nacional que justificasse as ações das elites. A História estava voltada para as elites e era utilizada como discurso para o imperialismo, para o expansionismo. Prova disso foi a invasão do México pela França onde Michel Chevalier, historiador e senador do Império francês, levou consigo a idéia de que “a França era a herdeira das nações católicas e lhe correspondia levar à América a tocha das raças latinas, isto é, francesa, italiana, espanhola e portuguesa.” (BRUIT, p. 2).
Este discurso estava pautado na idéia de latinidade¹, onde os franceses acreditavam serem os precursores do catolicismo e, por isso, deveriam invadir o México com a missão de salvarem os ‘latino-americanos’² dos perigos dos anglo-saxões e dos protestantes. Esse seria o discurso, tendo um ideal expansionista inerente na proposta. “Se realmente a França usou a latinidade para justificar seu expansionismo, este instrumento caiu no vácuo, não passou de uma ingênua utopia.” (BRUIT, p. 4).

Vale ressaltar aqui que, segundo Hector Bruit, a idéia de latinidade e a expressão “América Latina” “não existiram na consciência político-cultural dos intelectuais do continente.” (BRUIT, p. 4).
Após a década de 60 – especificamente no ano de 1968 – houve uma alteração no quadro historiográfico tradicional.
[...] emergia um renovado interesse nos mais variados aspectos da existência humana, acompanhado da convicção de que a cultura do grupo e mesmo o desejo do indivíduo podem ser, em determinadas circunstâncias, vetores de mudança potencialmente tão importantes quanto as forças impessoais do desenvolvimento material e do crescimento demográfico. (MALERBA, p. 19).
Houve uma valorização dos ‘excluídos’ pela história tradicional. Outros grupos sociais emergiam e os modelos macro-históricos ainda presentes “não bastavam para explicar os anseios do momento.” (MALERBA, p. 21). As visões conservadoras da história foram questionadas e sua funcionalidade também. A crença no progresso, na razão e num sentido para a História foram colocados em xeque. Também a História Política entraria em crise para ser retomada com consistência após cerca de duas décadas com o auxílio das ciências sociais – ciência política e a antropologia, principalmente. Dá-se ênfase aos estudos das identidades, dos modos de vida, das desconstruções, dos gêneros, etc.
A partir disso, houve uma fragmentação de objetos. Conseqüentemente surgiram novos métodos de análise para esta nova demanda historiográfica. Grupos sociais ainda discriminados foram alvos de constantes pesquisas, sendo que a análise da cultura se sobressaiu sobre a econômica, política e social. Os modos de vida dos nativos puderam ser analisados com maior prudência e, assim, pôde então ser percebido que a idéia de latinidade é algo estranho a essas populações. Concordando com esta idéia, Luis Alberto Sánchez (apud BRUIT, p. 10) acredita no fato de existir América Latina. Porém, ressalta que “essa existência é ambígua porque ela está fundada em um elemento estranho à maioria da população, isto é, a latinidade.” (BRUIT, p. 10).
O historiador Fernand Braudel é utilizado também na análise de Héctor Bruit:
Braudel não toca explicitamente no assunto de se o continente merece ser chamado de latino, mas desenvolve a tese óbvia de que existem várias Américas Latinas, não apenas determinadas pelos contrastes geográficos, mas também pelos contrastes políticos, culturais e econômicos. (BRUIT, p. 10).
A partir do desenvolvimento desta tendência historiográfica – a “Nova História” – podemos perceber que houve um crescimento quantitativo e qualitativo nas análises sobre a América Latina. Diversos autores dedicam obras riquíssimas em informações e análises culturais sobre as populações autóctones. Mas segundo Jurandir Malerba, não se pode desqualificar ou desconsiderar a produção marxista da história latino-americana. Para ele, a análise materialista da História constituiu durante décadas grande parte dos estudos sobre essas sociedades. O historiador ainda critica a análise pós-moderna da história e reivindica um movimento “pós-marxista”:
O pensamento fragmentado é incapaz de entender a realidade em sua totalidade: ele decompõe as partes e as hipostasia, como se fossem entidades autônomas e independentes. Portanto, Marx não está aí para ser “desconstruído” e para se extraírem de sua obra os melhores fragmentos. O pensamento de Marx é vertebrado na idéia de totalidade. Os pós-marxistas parecem não entender que toda essa operação intelectual repousa num pressuposto mecanicista insustentável: a idéia de que as teorias são meras coleções de peças e fragmentos que, como peças de dominó, podem ser recombinados ad infinitium. (MALERBA, p. 47).
Por fim, como colocado anteriormente, o termo América Latina ganha maior notoriedade após a Segunda Guerra Mundial com a fundação da CEPAL – Comissão Econômica Para América Latina. Este conceito, no entanto, é associado ao subdesenvolvimento e a América Latina vira sinônimo de “instabilidade política crônica, estrutura produtiva atrasada e em certos casos arcaica, dependência total ao capital norte-americano, estrutura fundiária reorganizada pelo capital monopolista, acentuado crescimento demográfico.” (BRUIT, p. 11).


¹ Segundo Hector Bruit, “a idéia de latinidade era associada a idéia de monarquia, de conservadorismo, de anti-liberalismo, de anti-republicano. A latinidade é européia, nasceu na Roma antiga, está estreitamente ligada a Igreja Católica, ao autoritarismo monárquico.” (BRUIT, p. 5).

² Expressão didática, utilizada pelo autor como maneira de associar os americanos aos povos latinos.

Referências Bibliográficas

BRUIT, Hector. A invenção da América Latina. Anais eletrônicos do V Encontro da Associação Nacional de Professores e Pesquisadores de História das Américas. BH, 2000.

MALERBA, Jurandir. A História na América Latina: ensaio de crítica historiográfica. RJ: FGV, 2009, PP. 14-48 (Introdução).

Um comentário:

Tim disse...

Olá,
achei esse artigo muito apropriado. Este é um tema do qual todos os latinos deveriam se interessar em pesquisar. Fomos "constituídos" com base numa autoridade sem alteridade e temos o dever de nos revelar...